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A cadeia produtiva do cânhamo e o agro brasileiro

Indústria do cânhamo pode ser uma aliada na busca por práticas mais sustentáveis no agronegócio

Mão em meio a plantas jovens de cannabis, tocando uma delas
Crédito: Unsplash
Neste artigo
  1. Em resumo
  2. Perguntas e respostas
  3. O artigo

Em resumo

Situação em

  • Ainda não existe no Brasil uma cadeia produtiva legal de cânhamo para fibras, alimentos, cosméticos ou construção: as normas de 2026 permitem cultivar cannabis com até 0,3% de THC apenas para fins medicinais, de pesquisa e de exportação.
  • O cultivo depende de Autorização Especial (AE) da Anvisa para cada estabelecimento, concedida só a pessoas jurídicas e depois de inspeção sanitária favorável; o agricultor pessoa física não pode plantar.
  • A AE de cultivo cobre o ciclo até a droga vegetal, isto é, a planta colhida; extrair, fabricar e transportar exigem autorizações próprias, o que obriga a desenhar a cadeia elo por elo.
  • O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) atua na cadeia pelo Registro Nacional de Cultivares, exigido para cultivares de uso medicinal, e pelo Registro Nacional de Sementes e Mudas (RENASEM), exigido de quem importa ou fornece sementes.
  • Desde novembro de 2025, a Embrapa tem autorização da Anvisa para pesquisar o cultivo de Cannabis sativa L., inclusive o cânhamo para fibras e sementes, sem comercializar os resultados.

Perguntas e respostas

Já é possível montar uma cadeia produtiva de cânhamo no Brasil?

Só para fins medicinais, de pesquisa e de exportação. A RDC nº 1.013/2026, vigente desde 4/8/2026, permite a pessoas jurídicas com Autorização Especial cultivar Cannabis sativa L. com até 0,3% de THC e vender o material apenas a destinatários autorizados, para fins medicinais. Destinar a produção a outras finalidades industriais, como têxteis, materiais de construção ou alimentos, não está autorizado. O detalhamento está em cânhamo industrial no Brasil: o que é permitido.

Quais autorizações cada elo da cadeia do cânhamo precisa?

Cada etapa tem autorização própria. O cultivo exige AE que inclua expressamente essa atividade; extrair, obter derivados ou fabricar insumos e produtos exige a AE correspondente e, para fabricar insumos farmacêuticos ou medicamentos, também Autorização de Funcionamento de Empresa (RDC nº 16/2014); o transporte direto depende de a AE incluir essa atividade. O produto final de uso medicinal precisa de registro como medicamento ou de Autorização Sanitária (RDC nº 1.015/2026), e o teor de THC de cada lote é analisado em laboratório próprio licenciado ou habilitado na Reblas (RDC nº 1.039/2026).

O agricultor pode plantar cânhamo em sua propriedade?

Não como pessoa física. Os regimes de cultivo de 2026 valem só para pessoas jurídicas, e cada estabelecimento precisa de AE própria, pedida depois de inspeção da autoridade sanitária local que confere o Plano de Controle e Monitoramento. Uma empresa rural pode pedir a AE se cumprir as exigências de segurança, rastreabilidade, análise de THC por lote e contenção da planta; o passo a passo está em como obter a Autorização Especial para cultivar cannabis.

O Brasil pode exportar cânhamo?

Sim, dentro de limites. A RDC nº 1.023/2026 incluiu a exportação entre as finalidades do cultivo com até 0,3% de THC, com quantidades comprovadas por contratos ou documentos de intenção de compra, venda e distribuição. A AE de cultivo cobre a exportação até a droga vegetal; sementes e outro material de propagação dependem de anuência do MAPA, e o material vegetal não propagativo segue os controles da Lista A3 e exige Autorização de Exportação.

Que papel o MAPA e a Embrapa têm na cadeia do cânhamo?

O MAPA registra cultivares e controla sementes: a cultivar de uso medicinal precisa estar no Registro Nacional de Cultivares com até 0,3% de THC, quem importa ou fornece sementes precisa de inscrição no RENASEM, e a importação de sementes com até 0,3% de THC depende de anuência do MAPA. A Embrapa recebeu em 19/11/2025 autorização excepcional da Anvisa para pesquisar o cultivo de Cannabis sativa L.; segundo a Embrapa, as linhas incluem caracterização de germoplasma, pesquisa agronômica para uso medicinal e pré-melhoramento de cânhamo para fibras e sementes, sem comercialização.

Como a União Europeia e o Canadá regulam o cultivo de cânhamo?

Nos dois casos, o cultivo para fins industriais é permitido com variedades de baixo THC. Na União Europeia, o agricultor deve usar sementes certificadas de variedades do catálogo comum com até 0,3% de THC, limite aplicado desde 2023 pela política agrícola comum (Comissão Europeia). No Canadá, o cultivo e o processamento dependem de licença da Health Canada e de cultivares aprovadas com até 0,3% de THC nas folhas e inflorescências; extrair canabinoides das inflorescências exige licença de cannabis (Health Canada).

O artigo publicado no JOTA

Em um cenário em que o agronegócio brasileiro busca demonstrar sua sustentabilidade frente a questionamentos internacionais, um debate se acende: a incorporação da cadeia produtiva do cânhamo no país. O Brasil tem potencial para abraçar essa alternativa sustentável, geradora de emprego e capaz de abrir novos mercados, ou corre o risco de ser eclipsado por críticas internas e externas que questionam sua postura no setor agropecuário?

A recente visita do ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, à China, defendendo um projeto brasileiro de transição sustentável no agronegócio, contrasta com as críticas proferidas pelo presidente da Apex, também em território chinês, que apontou problemas no agro brasileiro. Essa dualidade de discursos é representativa das controvérsias no cenário nacional sobre a aplicação da cannabis no agronegócio.

O cânhamo, planta da mesma família da cannabis, mas sem efeito psicotrópico, possui uma ampla gama de aplicações industriais, desde a produção de fibras para tecidos e materiais de construção até a obtenção de óleos e derivados para uso na indústria alimentícia, cosmética e farmacêutica. Por esse motivo, ele é utilizado em praticamente todos os países desenvolvidos.

A Europa, por exemplo, já explora esse mercado há décadas, com resultados significativos no campo da inovação e do desenvolvimento sustentável, e utiliza essa cultura para produção de têxteis, materiais de construção e alimentos. Nos Estados Unidos, esforços têm sido feitos para desenvolver uma cadeia de fornecimento doméstico, enfrentando gargalos logísticos de escala, armazenamento e processamento, e desenvolvendo uma estrutura que englobe desde a produção de sementes até a venda de produtos finais.

O Canadá tem se destacado no cenário internacional como um líder na produção e comercialização de cânhamo, impulsionado por um marco regulatório claro e investimentos em pesquisa e desenvolvimento. A indústria canadense de cânhamo concentra-se principalmente na produção de grãos de cânhamo, com crescente interesse no aproveitamento das fibras da planta para aplicações industriais. O país conta com infraestrutura de processamento e distribuição bem estabelecida, além de mecanismos para garantir a qualidade e rastreabilidade dos produtos de cânhamo.

A indústria do cânhamo na Austrália tem experimentado um rápido crescimento nos últimos anos, com foco na produção de alimentos, têxteis e materiais de construção. O país tem investido em pesquisa e desenvolvimento para expandir a cadeia produtiva do cânhamo e diversificar as aplicações da planta, incluindo a exploração de sua utilização na produção de bioplásticos e outros materiais sustentáveis. A indústria australiana tem trabalhado em estreita colaboração com instituições de pesquisa e órgãos reguladores para estabelecer padrões de qualidade e garantir a segurança dos produtos de cânhamo.

No Brasil, a adoção de uma cadeia produtiva do cânhamo, sustentável e eficiente, demandaria investimento em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias agrícolas, além de capacitação de produtores e mão de obra especializada, assim como uma rede logística eficiente, que permita o escoamento e a comercialização dos produtos derivados do cânhamo. 

No entanto, o agronegócio brasileiro já enfrenta diversos problemas e dificuldades que podem impactar a cadeia produtiva como um todo. Um dos principais desafios é a logística, que envolve o transporte, armazenamento e distribuição dos produtos agrícolas – até hoje nossa malha ferroviária é ínfima quando comparada ao resto do mundo. A falta de infraestrutura adequada e a distância entre as áreas de produção e os centros consumidores geram custos elevados, perdas e ineficiências no setor. A sustentabilidade ambiental é outro desafio enfrentado pelo agronegócio brasileiro, que precisa conciliar a expansão da produção com a preservação dos recursos naturais e a redução do impacto ambiental, incluindo questões como desmatamento e emissões de gases de efeito estufa.

Outro ponto importante a ser considerado são as questões sociais relacionadas à cadeia produtiva do agronegócio, como a concentração de terras e a desigualdade no acesso a recursos e crédito, que dificultam a inclusão e o desenvolvimento de pequenos e médios produtores.

Especificamente para o caso do cânhamo, é muito importante a construção de uma imagem positiva do cânhamo no país, dissociando-o da maconha e destacando seus benefícios econômicos, sociais e ambientais. A indústria do cânhamo pode ser uma aliada na busca por práticas mais sustentáveis no agronegócio brasileiro, o que pode fortalecer a imagem do país no cenário internacional.

O setor agropecuário brasileiro tem se posicionado como sustentável e eficiente, buscando reforçar sua imagem positiva no cenário internacional. Diante das críticas externas, o setor destaca a preservação de vegetação nativa, leis ambientais rigorosas e expansão da produção sustentável, reiterando a importância de basear a percepção do agronegócio em dados oficiais e científicos, em vez de ideologias.

Por isso, a cadeia produtiva do cânhamo surge como uma ferramenta para o agronegócio brasileiro em sua busca por sustentabilidade, contribuindo para a diversificação da matriz produtiva, a geração de emprego e o fortalecimento da imagem do país no cenário internacional. Porém, para que essa implementação seja bem-sucedida, é necessário enfrentar os desafios citados, como as barreiras legais, investimento em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias agrícolas, capacitação de produtores e mão de obra especializada e estabelecimento uma rede logística eficiente. Talvez 2023 seja o ano no qual o Brasil dará seus primeiros passos para um casamento estratégico entre o agro tradicional e o cânhamo industrial.

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